Por Ricardo Pimentel Nogueira, representante dos servidores técnicos e administrativos junto ao Conselho Universitário e à Comissão Central de Recursos Humanos da USP, servidor do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC) da USP em Bauru*

Ricardo Pimentel Nogueira. Foto: Arquivo pessoal
A Universidade de São Paulo tem o mérito e o orgulho de “integrar um seleto grupo de instituições de padrão mundial” a partir do “talento e dedicação dos docentes, alunos e funcionários”, como destacado em sua apresentação institucional. No conjunto específico de servidores técnicos-administrativos, somos mais de 12.600 trabalhadores de diversas especialidades e áreas do conhecimento.
Dimensão ampla e multiforme que leva ao desafio contínuo de valorizar e reconhecer a dedicação daqueles que também contribuem, significativamente, para a excelência acadêmica. Dedicamo-nos a ofícios dos mais variados e diversos, que sustentam e fortalecem o cotidiano acadêmico. Da manutenção patrimonial à vigilância, passando pela assistência acadêmica e em laboratórios, cumprimos, ainda, com labores especializados como contabilidade, Direito, saúde e informática, entre múltiplos outros, exercidos de maneiras singulares e coletivas.
A proposta da implementação uniforme de um Adicional de Incentivo à Qualificação (AIQ) partiu de um diagnóstico simples e inquietante, de verificar que muitos trabalhadores possuem competência superior à exigida para seus cargos. E que essas titulações, conquistadas nos bancos acadêmicos da própria USP e de outras instituições, ainda não são recompensadas de forma organizacional.
Demos, então, início a um processo de levantamento de dados coordenado por um grupo de trabalho constituído por servidores de diversas unidades nos três níveis de carreira – básico, técnico e superior. Esse esforço coletivo permitiu consolidar informações qualificadas e aprofundar a análise sobre o tema. Constatamos que diversas instituições públicas municipais, estaduais e federais já adotam programas similares como política permanente de valorização de seus quadros. São iniciativas que cumprem um papel estratégico de retenção de talentos e estímulo de desenvolvimento profissional, aprimorando o conjunto das atividades corporativas.
Na USP, esta demanda é particularmente relevante se considerarmos sua missão, visão e valores. Se há um número considerável de funcionários com formação além do mínimo exigido para suas funções, o reconhecimento dessa qualificação não é apenas questão de recompensa, mas de estratégia institucional.
Mais do que um benefício individual, tal valorização representa uma política estruturante. No caso do AIQ, o critério é transparente e mensurável: o servidor que comprovar a qualificação passa a ser automaticamente gratificado financeiramente. Governança pragmática, apartada de avaliações subjetivas que, historicamente, ensejam críticas nos processos de progressão de carreira.
O reconhecimento financeiro vinculado à evolução acadêmica gera impactos diretos na motivação, no engajamento e no sentimento de pertencimento. O servidor passa a enxergar, de forma concreta, a conexão entre seu desenvolvimento pessoal e a busca contínua pelo conhecimento e o papel profissional dentro da Universidade. É um movimento que produz efeitos sistêmicos, porque equipes mais qualificadas ampliam a capacidade administrativa, fortalecem a inovação e contribuem para que a Universidade responda com mais eficiência aos desafios contemporâneos.
Em um cenário global marcado pela competitividade acadêmica e complexidade da gestão universitária, investir em recursos humanos é decisão estratégica. Ao reconhecer objetivamente a qualificação, a Universidade estimula um ambiente em que aprender deixa de ser apenas uma possibilidade e torna-se parte da cultura organizacional.
Outro ponto central é o potencial inclusivo. Ao estimular a qualificação, o AIQ incentiva a busca por formação continuada, oferecida pela própria Universidade. É a consolidação de um ciclo virtuoso: o funcionário busca seu desenvolvimento e capacitação, a instituição se revigora e o conhecimento é difundido internamente com maior intensidade.
O amadurecimento dessa discussão evoluiu para o diálogo direto com a gestão superior da Universidade. Em 2025, o projeto do AIQ foi formalmente apresentado aos candidatos à Reitoria. Em março último, a proposta foi novamente entregue, em mãos, para o reitor Aluisio Augusto Cotrim Segurado e para a vice-reitora Liedi Légi Bariani Bernucci, reforçando o compromisso de avançar a discussão.
O debate vem ganhando força, consistência e adesão. O que começou como uma inquietação individual se transformou em proposta com densidade técnica e relevância institucional. Hoje, com o tema avançando nas instâncias da USP, constatamos que a ideia inicial encontrou ressonância. O AIQ passa a se consolidar como método de valorização alinhado às melhores práticas de gestão pública. Trata-se, em essência, do autêntico ganha-ganha: valoriza-se o servidor e a instituição dispõe de base cada vez mais sólida para cumprir sua missão com excelência.
“Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa”, asseverou Paulo Freire. É nesse espírito que o AIQ pode se estabelecer não apenas como um instrumento de valorização, mas como motor permanente de crescimento humano e institucional dentro da USP.
*As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo.
(Fonte: Jornal da USP)

