Contemplado pelo edital de 2026 do Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET-Saúde) do Ministério da Saúde, o projeto é voltado à formação de estudantes e profissionais para o enfrentamento dos impactos das mudanças climáticas e ambientais sobre a saúde da população e sobre a organização do Sistema Único de Saúde

Professor José Sebastião dos Santos, diretor da FMBRU e coordenador do projeto, durante o primeiro encontro do PET-Saúde/Clima da instituição. Foto: Ale Gennari/FMBRU
A Faculdade de Medicina de Bauru (FMBRU) da Universidade de São Paulo (USP) deu início a um projeto que visa fortalecer a formação de estudantes e profissionais da saúde para o enfrentamento dos impactos das mudanças climáticas e ambientais sobre a saúde da população e sobre a organização do Sistema Único de Saúde (SUS).
Intitulado “A Terra Dá, a Terra Quer: Integração Ensino-Serviço-Comunidade e Formação Interprofissional nas Respostas do SUS às Emergências Climáticas e Ambientais” e com duração de dois anos, o projeto foi contemplado pelo Edital nº 23/2026 do Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET-Saúde) do Ministério da Saúde, na temática Clima.
A iniciativa é coordenada pela FMBRU-USP e tem como instituições parceiras a Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB-USP), o Hospital das Clínicas de Bauru (HC Bauru), a Secretaria Municipal de Saúde de Agudos, além da Faculdade de Ciências (FC) e da Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design (FAAC) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Bauru.
“Este projeto reúne docentes, estudantes, profissionais de saúde e gestores em uma proposta de integração entre ensino, serviço e comunidade para aproximar a formação universitária das necessidades concretas dos territórios e do Sistema Único de Saúde”, destaca o professor José Sebastião dos Santos, coordenador do projeto e diretor da FMBRU-USP.
A iniciativa conta com a atuação de mais de 60 participantes, dentre eles 40 estudantes de graduação (das áreas de Medicina, Odontologia, Fonoaudiologia, Ciências da Computação e Comunicação), 5 docentes coordenadores de grupos de aprendizagem, 5 docentes tutores, 10 preceptores e 3 orientadores de serviço, todos com bolsas oferecidas pelo Ministério da Saúde.
Ao longo dos 24 meses de execução, serão desenvolvidas atividades de ensino-aprendizagem, diagnóstico territorial, vigilância, educação, comunicação e inovação em saúde, bem como análise da organização dos serviços e das redes de atenção à saúde diante das emergências climáticas e ambientais.
As ações do projeto buscarão desenvolver também competências relacionadas à gestão de riscos e desastres, enfrentamento de epidemias, segurança alimentar, nutricional e hídrica, saúde mental, doenças transmissíveis e doenças crônicas, além de uma abordagem integrada entre saúde humana, animal e ambiental.
Na prática, as ações do projeto poderão contribuir, por exemplo, para: mapear vulnerabilidades socioambientais e climáticas locais; identificar populações mais expostas a calor extremo, baixa umidade, queimadas, insegurança hídrica e riscos ambientais; construir protocolos territoriais de cuidado para agravos à saúde sensíveis ao clima; qualificar fluxos de atendimento entre os diferentes níveis de complexidade (atenção primária, secundária e terciária em saúde); reduzir riscos de descontinuidade assistencial em populações vulnerabilizadas; desenvolver materiais educativos sobre calor, hidratação, queimadas, qualidade do ar, água segura, saúde bucal e saúde vocal e respiratória; e promover letramento digital em saúde e enfrentamento da desinformação climática e ambiental.
Formação conectada à realidade local
Mudanças climáticas e ambientais produzem consequências relacionadas não apenas ao meio ambiente. Eventos extremos, alterações de temperatura, períodos de seca ou chuvas intensas, poluição e outros fenômenos ambientais repercutem diretamente sobre a saúde das populações e podem ampliar desigualdades já existentes. Esses efeitos não atingem todas as pessoas da mesma maneira. Condições sociais, econômicas e territoriais podem tornar determinados grupos e comunidades mais expostos aos riscos e, ao mesmo tempo, com menor capacidade de resposta.
Nesse sentido, um dos principais diferenciais do PET-Saúde é a aprendizagem realizada a partir da realidade dos serviços e das comunidades. Estudantes, docentes e profissionais de saúde trabalham conjuntamente nos territórios, buscando compreender como as condições ambientais, sociais e climáticas interferem no processo saúde-doença e na organização da assistência.
Por essa razão, o PET-Saúde/Clima coloca a equidade em saúde no centro das ações, considerando especialmente o agravamento de iniquidades sociais, raciais, étnicas, territoriais e de gênero diante das emergências climáticas e ambientais. A proposta é contribuir para que o SUS esteja cada vez mais preparado para reconhecer essas vulnerabilidades, antecipar riscos e organizar respostas que considerem as diferentes necessidades das pessoas e dos territórios.
“Outro aspecto importante dessa abordagem é a valorização dos saberes comunitários, populares e territoriais. Mais do que levar conhecimento da universidade para os serviços e para a população, este projeto pretende construir soluções de forma compartilhada, reconhecendo que as próprias comunidades possuem conhecimentos e experiências fundamentais para compreender os territórios e desenvolver estratégias de adaptação e resiliência”, salienta o professor Sebastião.
Integração Universidade, SUS e comunidade
A participação integrada da USP, Unesp, HC Bauru e Secretaria Municipal de Saúde de Agudos amplia as possibilidades de formação interprofissional e de construção de respostas articuladas para problemas que ultrapassam os limites de uma única profissão ou instituição.
Para o dirigente da FMBRU-USP, a expectativa é que essa experiência contribua também para o aprimoramento da formação dos estudantes da área da saúde, em consonância com as Diretrizes Curriculares Nacionais, fortalecendo a presença de temas relacionados às mudanças climáticas, à equidade e às necessidades do SUS nos processos formativos.
O PET-Saúde/Clima constitui, assim, não apenas uma iniciativa de formação acadêmica, mas uma oportunidade estratégica de aproximar universidades, serviços de saúde e comunidades na construção de respostas para um dos principais desafios contemporâneos da saúde pública: as mudanças climáticas e do meio ambiente.
“Ao integrar formação profissional, atuação nos territórios, produção de conhecimento e fortalecimento do SUS, espera-se que o projeto contribua efetivamente para que estudantes e profissionais estejam mais preparados para compreender e enfrentar os efeitos das emergências climáticas e ambientais, tendo como princípios a equidade, a integralidade do cuidado, a justiça climática e a proteção das populações mais vulnerabilizadas”, conclui Sebastião.

Discussão dos grupos de aprendizagem durante o primeiro encontro do PET-Saúde/Clima da FMBRU. Fotos: Ale Gennari/FMBRU
Primeiro encontro
Após os processos seletivos para tutores, preceptores, estudantes e orientadores de serviço, o primeiro encontro presencial reunindo os participantes do projeto PET-Saúde/Clima da FMBRU-USP foi realizado no último dia 1º de setembro, no Auditório da Biblioteca da USP Bauru.
De acordo com os organizadores, o evento marcou uma importante etapa de integração e o início das atividades coletivas do projeto. Participaram do encontro a coordenação geral, docentes, tutores, preceptores e estudantes bolsistas que estarão envolvidos nas atividades ao longo dos próximos dois anos.
O encontro teve como objetivo apresentar a proposta do PET-Saúde/Clima, promover a aproximação entre os participantes e alinhar a organização inicial das atividades. Também foi um momento para discutir os princípios que orientarão o trabalho dos grupos, especialmente a integração ensino-serviço-comunidade, a formação interprofissional e a compreensão das relações entre mudanças climáticas, território, vulnerabilidades sociais e saúde.
(Com informações do PET-Saúde/Clima da FMBRU-USP)


